Blitzkrieg

Os corpos em chamas estavam jogados próximos aos destroços do jipe. Explosão, apesar de toda a sua violência, nada destruiu além das vidas contidas no veículo. Também não haveria muito mais a destruir. A paisagem ao redor era composta apenas por escombros e ruínas incineradas. A guerra acabara, os mocinhos venceram.
Os belos prédios, as antigas praças... Nada mais existia, a não ser pelas lembranças dos sobreviventes. Era o reinado da destruição e do caos. O grande relógio na torre, que jamais atrasava, marcava o tempo exato de quando foi atingido mortalmente. Três e vinte dois...
Na rua havia ônibus de dois andares tombados ou incendiados, os famosos táxis agora eram negros da fuligem que ainda poluía a atmosfera. O bombardeio final fora virulento, revolvendo a terra, virando prédios pelo avesso. Tudo estava envolto por um fog sinistro e sombrio. Com o hálito de Caronte.
As operações estavam terminadas. Apesar disso havia ainda armamentos por todos os lados. Espalhados, esperando o primeiro grito dos homens para voltarem a matar e destruir, a sua doce missão nessa terra.
Eles ainda ofereceram muita resistência, mantiveram-se distantes da carnificina que se desenvolvia no continente. Mas o poderio do Império não foi suficiente para impedir o êxito da Águia Bicéfala, e como uma sombra negra, encobriu a valente ilha.
A mina escondida no solo, sorrateira, covarde e de uma inocência cruel, esperou apenas que os pneus a comprimissem para emitir seu grito grave. Pobres jovens, mortos em uma guerra acabada, vítimas idiotas de armas irracionais. Imolados como cordeiros de um sacrifício para um deus pagão já saciado.
Assim na Europa o Terror chegava ao fim, com a queda do último bastião da resistência. Mas no resto do mundo as hordas convulsionavam-se ainda, como os vermes sobre um suculento pedaço de carne humana fresca. E aquela que seria conhecida como Segunda Guerra Mundial, ou a Derradeira Guerra, varria o planeta numa fúria incontrolável. Da Ásia às Américas, da África à Oceania. O planeta conhecia a força do Poder Ariano. Sob as lagartas dos blindados da divisão Panzer ou nas bombas da Luftwaffe, tudo era arrasado pela Blitzkrieg.
Mas no antigo continente a paz reinava. Apesar dos odores de pólvora e sangue fresco. E aqueles pobres soldados agora mortos pela covarde bomba enterrada, não veriam o seu Führer caminhar triunfante sobre as cinzas de Londres. A Inglaterra era anexada ao grandioso império alemão. O pavilhão com a suástica seria hasteado em todos os lugares. Tudo produzido por aquela cultura decadente seria absorvido pelo Novo Império. O apetite e a sede da Águia Bicéfala seriam saciados.
Os jovens tombados, já sem o sopro da vida, há pouco pensavam sobre o futuro. Como tudo seria maravilhoso naquele mundo. Conversavam animadamente sobre as belas francesas que trocavam seus corpos por uns míseros trocados, ou os tinham tomados à força mesmo. A vida será tão bela, eles pensavam entre si. Mas quando o jipe voou pelos ares, atingidos por uma granada arremessada pela mão da Resistência naquela madrugada de 1941, em seus últimos instantes, com seus corpos sendo carbonizados rapidamente, lamentavam pelo que não teriam chance de ver.

. Bookmark the permalink.