
As flores chegaram atrasadas. As desculpas nem foram lidas. Uma pena! No fogão, a chaleira já seca, havia sido posta com água para coar um gostoso café.
Mas chegaram tarde demais. A casa agora estava deserta. Seus passos já não mais se ouviam. Era tudo uma calmaria só. Um silêncio extático e penetrante, capaz de matar os menores sons que por ventura tentassem se fazer notar.
Na porta, o jornal jogado pelo garoto, ainda estava lá. Nem fora tocado. As flores ainda estavam frescas. Exalando um perfume incomum, sufocante. As pequenas rosas, dotadas de tamanha força, pareciam mais frágeis do que de costume, estavam encolhidas, trêmulas de frio, pela falta do calor humano a quem elas foram amorosamente enviadas.
Seu cão estava amarrado nos fundos. Partira tão abruptamente, que por sua falta ainda não se dera. Continuava dormitando, com seu ventre para cima, esperando a mão tenra e carinhosa que sempre pela manhã aparecia. O jardim estava impecável como ela sempre gostara. A terra ainda úmida e o saco de adubo próximo, indicavam fortemente que quem havia partido não o fizera a muito tempo. O abandono ainda não se fazia presente.A aparência de tudo é de que o tempo havia parado.
Seu livro repousava sobre a mesa, aberto na página 23. Uma orelha marcava a página em que parara de ler. Haviam ainda algumas folhas em branco, já que sempre tem uns rompantes de inspiração e não poderia perder esses momentos. "Um novo Lusíadas pode estar nascendo!" , dizia sorrindo.
Por que partira? Nem um bilhete deixara. Não houve tempo. As coisas estavam nos seus lugares, arrumadas, dando a nítida impressão de que ainda voltaria. "Será uma saída rápida", seus objetos pensavam. Mas o tempo passava e não retornava desse pequeno passeio. Todos ficaram atônitos, até mesmo nós. Sumira... Deixara pequenas marcas no mundo, quase imperceptíveis. Mas naquele universo em que vivia, ela era a deusa de todos. Era a razão e o motivo. O fato de existirem não era devido a sua presença? Agora se fora... Para onde? E num instante a atmosfera tornou-se lúgubre. O ar era irrespirável. O Abandono chegou-se em seu corcel negro, gargalhando. Era toda a casa território do Caos. As coisas continuavam arrumadas em seus lugares, mas nada mais era como antes. A depressão despertou em todos e o cão agora gania inconsolável.
E aqueles com quem convivera perguntavam aflitos: Por que e para onde partira? Ninguém sabe, nem mesmo ela que nos observa a todos, caída no chão, de olhos abertos, mirando pela última vez tudo que a cercou.
Um pouco de mim
Tantos "nomes" tenho que até esqueço-me do real.
De sobrenome Simas, quis a vida (e meus amigos) que aquele que levei à pia batismal fosse substituído por Epa, Nondas, Simão...
Enfim, tantas outras identidades, identificações. Máscaras para cada dia que se passa.
Aqui encontrarás em prosa minhas visões, impressões e sonhos. Um delírio, uma viagem, uma "trip".
Quer me acompanhar? Não deixe de ler então o aviso no primeiro Post - Proposta.
Seja bem-vindo à bordo!
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Antigas lembranças
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